Indústria automotiva ainda diante do risco da concentração de suprimentos
Estudo encomendado pela Acea aponta novos desafios frente a já reconhecida falta de diversificação de fornecedores
A concentração das cadeias de suprimentos representa o maior risco para o futuro da produção automotiva na União Europeia. Essa é a principal conclusão do estudo “Analysis of Structural Dependencies and Geopolitical Pressures in the Automotive Value Chain”, elaborado pelas unidades da República Tcheca e da Alemanha da consultoria Ernest & Young a pedido da Acea, associação que reúne as montadoras europeias.
Dez insumos sob seis fatores de risco
O trabalho avaliou dez materiais e componentes críticos, dentre eles semicondutores, ímãs de terras raras, silício, cobre e chicotes elétricos em relação a seis fatores capazes de restringir sua disponibilidade. Terras raras, ímãs de neodímio-ferro-boro, silício e tungstênio aparecem como particularmente vulneráveis. O maior risco decorre da oferta concentrada em um número limitado de países, fornecedores e polos de processamento, além de poucas alternativas e longos prazos para criar capacidade nova.
Gargalo no processamento
Para seis dos dez insumos analisados, a extração se mostra como um problema menor, mas são o refino e o processamento que constituem o estágio mais arriscado da cadeia de valor. O gálio, por exemplo, ilustra a condição. O estudo cita ainda quatro cenários de exposição geográfica, com destaque para eventuais interrupções no fornecimento de eletrônicos vindos de Taiwan. Comparações internacionais, como o caso da Coreia do Sul, indicam que a resiliência nasce de ecossistemas industriais interconectados, não de investimentos isolados.
“O principal desafio da Europa não é apenas o acesso às matérias-primas. As carências de capacidade de processamento, fornecedores qualificados e conhecimento especializado são mais críticas”, aponta o documento.
Eletrificação aumenta a pressão
A transição para veículos elétricos e cada vez mais digitais reduz a dependência de componentes tradicionais, porém, eleva a demanda por semicondutores, eletrônica de potência e materiais críticos de cadeias altamente concentradas. Em paralelo, a indústria automotiva disputa esses insumos com setores de inteligência artificial, data centers, defesa e energia limpa.
Ampliar a capacidade dos insumos mais críticos leva, em geral, mais de cinco anos, com licenciamento, construção, validação técnica e qualificação automotiva. Para o estudo, a autossuficiência europeia plena não é meta realista. O caminho é diversificar fornecedores e rotas logísticas.
Cinco prioridades
O trabalho lista cinco frentes para reforçar a resiliência:
- acelerar licenciamento, qualificação e escala industrial;
- direcionar investimento aos gargalos mais críticos;
- diversificar parcerias de fornecimento;
- fortalecer o monitoramento e o preparo das cadeias;
- e criar demanda de longo prazo crível para destravar capital privado.
“A resiliência das cadeias de suprimentos é um imperativo estratégico para a indústria automotiva europeia. Precisamos trabalhar com os formuladores de políticas para desenvolver um conjunto de medidas e incentivos. Trata-se de proteger a força industrial da Europa”, afirmou Sigrid de Vries, diretora-geral da Acea.
O estudo completo está disponível no site da Acea e, entende a associação, serve de base para o debate sobre o futuro industrial do setor na Europa, em um momento em que a diversificação de fornecedores se consolida como a resposta central à exposição geopolítica.
Fonte: Grupo photon.
